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“Descobrir a pé uma costa de segredos

Há escarpas, dunas, serra, rio e dezenas de quilómetros de caminhos por explorar entre o Alentejo e o Algarve. A Rota Vicentina apresentou-se ao mundo. Para se fazer a pé. A Fugas experimentou algumas etapas.”

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“Caminha-se nos trilhos inventados pelos pescadores, junto às falésias batidas pelo mar bruto do Atlântico. Pelos carreiros que o gado percorre na serra, quando vai pastar. E por caminhos florestais. Passa-se por minas desactivadas e por fontes com fama de serem santas. Por cascatas e riachos. E por montes com casas brancas, reluzentes. Há ermidas isoladas e ruínas – casas inteiras, sala com lareira e quartos e cozinha, perdidas nos montes, esventradas por árvores e arbustros. E aldeias históricas. Aconselharam-nos um par de botas de caminhada, uma mochila com um piquenique, protector solar. E garantiram-nos que esta rota não é só para fanáticos do trekking. Com pernas pouco habituadas a andar a pé durante dias inteiros, arriscámos algumas etapas.

A Rota Vicentina começa em Santiago do Cacém e termina no Cabo de São Vicente. Ou não. Pode começar no Cabo de São Vicente e terminar em Santiago. Ou melhor: pode começar em qualquer ponto destes 356 km de percurso ao longo da costa sudoeste do país. Cada secção foi pensada para ser concluída num só dia. Nenhuma tem mais de 25 quilómetros.

Pode coleccionar-se aos bocadinhos – uma caminhada hoje, outra para o mês que vem. Ou a aventura pode durar semanas, se semanas seguidas houver livres para lhe dedicar. Uma rede de alojamentos garante que entre cada etapa se pode parar, um dia, dois dias (ou mais), e descansar – e andar a cavalo, de burro, mergulhar, fazer ioga, aprender surf, conforme o orçamento que se tenha para gastar. Caminhar, isso, é de borla. O carro, nestas férias, é suposto ficar estacionado.

O percurso acaba de ser lançado, a marcação dos caminhos não está concluída (falta a parte a sul de Odeceixe), mas já anda na boca do mundo. Jornais e revistas inglesas, holandesas e alemãs, sobretudo especializadas em actividades na natureza, colocam a Rota Vicentina na lista das rotas pedestres a explorar – falam de uma “costa secreta da Europa” (revista britânica Country Walking). Operadores turísticos europeus começam a vendê-la como destino para os amantes das caminhadas.
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A Fugas encontrou alguns deles pelo caminho, como Mike Smartt, 63 anos, um conceituado jornalista que em 1997 fundou o site da BBC News. É um homem de cabelo branco e, claramente, pernas em forma. “Há 20 anos que eu e a minha mulher fazemos uma caminhada por ano. Esta é a vigésima”, conta num final de tarde, copo de sumo de laranja na mão, sentado num cadeirão com almofadas cor-de-céu-de-Verão, rodeado de sobreiros e oliveiras, numa das herdades associadas ao projecto Rota Vicentina.

Este ano, a agência de viagens com a qual o casal trabalha, em Inglaterra, propôs-lhes a costa alentejana. E cá estão eles. A Fugas encontra-os ao fim de uma semana a andar a pé, pelos caminhos já marcados da Rota Vicentina. Fizeram à volta de 100 quilómetros. Estão longe de parecerem cansados. “Houve um dia em que falhámos os marcos e nos perdemos”, contam. Noutro dia tiveram que atravessar um rio “com água pelos tornozelos”, diz orgulhosa a mulher de Mike. “E viram as cegonhas?” – diz-se que não há outro sítio no mundo onde as cegonhas façam ninho nas rochas junto ao mar.

Balanço final: “Esta caminhada está no top das três das melhores que já fizemos, em 20 anos.” E enumeram as razões: pelas paisagens, pelo tipo de alojamento onde foram pernoitando, pela gastronomia – “Ahhh!, a comida!”

A Rota Vicentina é constituída pelo trilho dos pescadores, junto à costa (num total de 115 km), e pelo caminho histórico, no interior, passando por vilas e aldeias, por caminhos florestais e trilhos estreitinhos (241 km) com uma enorme variedade de flores, arbustos e árvores, aves e insectos.

Trilho dos Pescadores e trilho histórico (este último também pode ser percorrido de bicicleta) tocam-se em alguns pontos – pelo que é fácil passar de um para o outro, sempre a pé.

A Fugas caminhou ao longo de duas etapas: do Cercal do Alentejo à aldeia de São Luís (cerca de 25 km de serra, zonas de pasto e muitos eucaliptos na recta final); de Porto Covo a Vila Nova de Milfontes (à volta de 20 km, entre escarpas e praias selvagens, com as cegonhas por companhia). Fez ainda um circuito complementar: seis quilómetros que desembocam no areal da Praia da Bordeira (um percurso indicado para quem caminha com crianças que permite ver a praia com os olhos da serra).

Pelo caminho, os caminhantes cruzam-se com pastores e pescadores, com as histórias sobre os nomes das rochas batidas pelo mar (Lombo do Asno, Coice de Porco, Pedra da Cegonha…) e ouvem contar como alguns dos percursos integrados na Rota Vicentina terão feito parte dos Caminhos de Santiago, percorridos ao longo de séculos por peregrinos.


O homem dos garrafões

A Casas Brancas é uma associação sem fins lucrativos que nasceu há dez anos e congrega cerca de 60 turismos rurais, restaurantes e outros empresários do sector turístico. Assume-se como tendo o objectivo de “impulsionar a qualidade no turismo da região”. No último ano e meio centrou atenções no lançamento do projecto Rota Vicentina e, nas últimas semanas, tem promovido uma grande campanha de promoção, sobretudo para o estrangeiro, daquilo que acredita ser um “projecto de desenvolvimento e de sustentabilidade para esta região”, nas palavras de Rudolf Muller, presidente da Casas Brancas. “Um caminho ambiental e cultural.”

Em tempo de crise, Muller acredita que a Rota pode dar um impulso ao turismo. A ideia é trazer para a região mais turistas – turistas especiais, que respeitam a natureza e procuram paisagens preservadas. O mercado potencial é grande: o ecoturismo, que engloba as actividades de trekking, cresce, em todo o mundo, à média de 5% ao ano, segundo a Organização Mundial de Turismo.

Muller é um luso-suíço apaixonado por aves e plantas que vive há anos no Alentejo. Num país onde as caminhadas de longo curso ainda não fazem parte dos hábitos de férias da generalidade da população, há muito que procurava descobrir e  anotar caminhos usados pela população local nas suas mais diversas actividades.

Em Novembro de 2010 chegava a notícia: a candidatura apresentada pela associação ao Inalentejo (um programa financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) para lançar a Rota Vicentina tinha sido aprovada.

Dias depois, uma pequena equipa de pessoas punha mãos à obra. Cartas, apresentações, ofícios, protocolos, reuniões. Era preciso falar com autarcas, entidades estatais, empresas, proprietários de terrenos. Pedir autorizações, percorrer os caminhos uma e outra vez para garantir que eram os mais indicados, que davam condições de passagem, que não apresentavam riscos (a ideia era usar percursos que já existiam, mas num ou noutro caso foi preciso melhorá-los – por exemplo, no atravessamento de ribeiros).

“Muitos terrenos junto à costa estão divididos em pequenas parcelas de 20 metros de largura por um quilómetro de comprimento, cada um com o seu proprietário, e por vezes a rota passava por propriedade privada”, ilustra Marta Cabral, 36 anos, coordenadora do projecto Rota Vicentina. Chegar a alguns proprietários parecia, nalguns casos, tarefa impossível. Marta, umas vezes, Rudolf, noutros casos, batiam-lhes à porta. Às vezes não estavam. Viviam fora do país. Ninguém sabia bem onde… era preciso saber onde.

Tratados os formalismos, foi preciso colocar as placas direccionais (que vão indicado aos caminhantes quanto falta para chegar ao destino) e os marcos (centenas deles, de madeira, na maior parte dos casos, outras vezes simples riscas de tinta nas rochas – são esses sinais que nos informam se devemos ir em frente, virar à direita ou à esquerda). A Almargem, outra associação sem fins lucrativos, ficou responsável pelo traçado da parte algarvia (sendo esta associação que lidera o projecto da Via Algarviana, outra grande rota pedestre).

Feitas as contas, gastaram-se 540 mil euros neste projecto, entre dinheiro de programas comunitários, Turismo do Alentejo e de cinco autarquias. De fora ficam as muitas horas de trabalho voluntário dos associados.

Marta conta tudo isto enquanto caminha na secção Cercal-São Luís. Sai-se do Cercal pelas dez da manhã. Aos poucos as casas brancas da vila ficam para trás; passa-se a Ermida da Fonte Santa, acena-se ao homem do capacete vermelho que leva um monte de garrafões cheios da água da fonte atados à grelha da sua motoreta e, em pouco tempo, está-se na serra. Pára-se para espreitar uma antiga mina de ferro, para ver as cabras a pastar num monte, para ouvir uma canção – numa roulotte que já foi transformada em casa, com a sua antena de televisão e vasos de flores, há uma mulher que canta e a cantiga ouve-se pelos campos.


Um copo de vinho no paraíso

À hora de almoço, o sol queima e faz-se um desvio – desce-se a Rocha de Água d’Alte. Uma cascata a meio da etapa que, por vezes, está seca, como hoje. Mas vale a pena na mesma descer porque lá em baixo um caminho estreito junto à ribeira está transformado em pista de aterragem e descolagem para dezenas de borboletas-monarcas (enormes, de asas cor de laranja com listas pretas).

Antes, contudo, é hora de piquenique e o “guia” de serviço – Balthasar Trueb, 50 anos, um descontraído luso-suíço (pai suíço e mãe portuguesa), de cabelos grisalhos, abre a mochila. Do seu kit piquenique faz parte uma garrafa de vinho branco fresco. O grupo de caminhantes, hoje constituído essencialmente por jornalistas e operadores turísticos estrangeiros, brinda à sombra de um velho castanheiro. Da próxima vez, do kit piquenique da Fugas fará parte não só o vinho mas também uma almofada insuflável para a sesta.

Balthasar tem sido um dos que se tem envolvido a fundo no projecto da Rota Vicentina – com Marta Cabral passou os últimos meses a promovê-lo em feiras de turismo noutros países. É o dono de um dos empreendimentos associados à Casas Brancas, situado a quatro quilómetros  da praia dos Aivados, entre Porto Covo e Milfontes. A sua história é comum à de muitos dos que têm trabalho neste projecto. Conheciam o Alentejo das férias, mas viviam longe (tantas vezes fora do país) até que, um dia, quiseram mudar de vida. E rumaram a Sul.

A propriedade de Balthz, como todos o tratam, é constituída por montado, essencialmente, e foi comprada quando veio para Portugal produzir avestruzes. O negócio durou alguns anos, até que, com a gripe das aves, morreu. Seguiu-se um restaurante, no mesmo sítio – mas os clientes costumavam pedir-lhe se não podiam ficar para dormir. Em 2007, transformou o sítio e abriu um turismo rural. Chamou-lhe Três Marias, por causa do filme inspirado no livro de Isabel Allende. E por causa de duas coincidências: na história de Allende, a fazenda da família Trueba (apelido parecido ao de Balthasar) chama-se Três Marias; e parte do filme foi filmada na região.

“Olha um falcão peregrino!”, grita um caminhante. Muitas conversas nestes dias de caminhada serão interrompidas com exclamações semelhantes. “E aquilo? Não é um falcão-peneireiro?”

A Casas Brancas diz-se apostada em envolver a comunidade no lançamento da Rota Vicentina – processo que ainda está a decorrer, como explica José Granja, 30 anos, um jovem formado em Gestão de Empresas que também mudou de vida há três anos, quando largou Lisboa para trabalhar na associação. O Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, os turismos do Alentejo e Algarve, a Polis Litoral Sudoeste e a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal são parceiros estratégicos.

Para além disso, tem havido reuniões com empresários locais, conta. E a associação quer no próximo ano ir às escolas falar da Rota – e de turismo de natureza, de desenvolvimento sustentável, de conservação do ambiente, porque está tudo ligado, sublinha José.

Há ainda que reforçar a capacidade de receber os caminhantes. Para já, há 34 turismos rurais (que fazem parte da Casas Brancas) que estão articulados – o que significa que quem quer fazer a Rota Vicentina pode seleccionar o percurso, contactar os alojamentos da rede que ficam próximo das etapas escolhidas e estes garantem que, no início de cada manhã de caminhada, as bagagens seguem de carro para o alojamento seguinte; ao final do dia, quando o viajante chega ao destino, lá estão as suas malas.

Mas existem outras opções, fora da associação – incluindo parques de campismo e pensões – que, aos poucos, poderão organizar-se de forma a garantir que a rota é passível de ser feita nos mesmo termos para quem os escolhe sem que o transporte das bagagens de uma etapa para outra sejam uma preocupação.

Ideias não faltam. A Casas Brancas também planeia vir a criar uma bolsa de voluntários que vão informando sobre o estado do percurso e dos marcos e pretende arranjar um patrocínio de uma grande marca que permita ter um orçamento para a manutenção. Um mapa detalhado do percurso à escala de 1:50.000 e um guia de campo deverão estar prontos nos próximos meses, mas no site da Rota Vicentina já se pode descarregar todo o percurso para GPS (sim, há quem saque do smartphone em plena serra para descobrir onde está).

Ao longo do caminho, ouviremos várias vezes enunciar o receio de que esta costa com tantos recantos secretos, com tantas praias que permanecem vazias mesmo no pico do Verão, seja invadida por turistas. Há uma mistura de sentimentos contraditórios: toda a gente quer que o turismo da região seja sustentável e se desenvolva. Mas ninguém quer perder o sossego. “Não fale muito desta praia lá no jornal, para ver se ela continua vazia!”, foi uma frase que ouvimos com alguma frequência.

“Há lugares muitos especiais para quem aqui vive que as pessoas não os querem ver invadidos”, reconhece Marta Cabral. Alguns desses lugares são segredos bem guardados que dão especial gozo se forem descobertos à medida que se caminha – o Pego das Pias, entre São Luís e Odemira, onde há muito os habitantes locais vão mergulhar; o canal de irrigação entre Odeceixe e Rogil (“sim, também há levadas no Alentejo”, como diz alguém); as muitas praias vazias, com as suas grutas e acessos que parecem impossíveis vistos do alto da falésia… Cada etapa, diz Marta Cabral, tem um ponto alto, “uma pérola” – e há algum secretismo na forma como se fala dessas “pérolas”, porque a ideia é que estas sejam descobertas pelos caminhantes e não um chamariz para domingueiros de jipe.

A verdade é que o lançamento oficial da rota foi em Maio e o vídeo promocional já foi visto mais de dez mil vezes. Todos os dias, há uma média de 20 subscrições da newsletter que vai dando conta das notícias da rota, diz Marta Cabral. Mas na prática é cedo para dizer quantos caminhantes se vão pôr a caminho, realmente.

Uma coisa foi confirmada pela Fugas: não é preciso ter grande aptidão física para percorrer etapas de 20 quilómetros por dia – enfim, dói no primeiro dia, uma pomada anti-inflamatória para os músculos das pernas pode ajudar quem passa boa parte do ano sentado a uma secretária, há que dizê-lo. Mas a paisagem ajuda a esquecer o cansaço.

Que mais é preciso? Pouco. Cite-se Marta, quando, à sombra do castanheiro, enumerava as regras da rota: “Ser simpático para as pessoas que encontrar; respeitar a propriedade privada, fechar cancelas e portões se os encontrar fechados, deixá-los abertos se estavam abertos; nada de lixo; não fazer campismo selvagem, por muito apetecíveis que sejam os lugares por onde vai passar.” E vão ser, seguramente.”

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